Opinião  
 

Orgulho luso-brasileiro

Reconhecer-se orgulhoso pode parecer algo negativo, característico de quem é vaidoso, soberbo. Entretanto o contexto ao qual gostaria de me referir sobre esta palavra é positivo: o orgulho de ser luso-brasileiro! Nasci no Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo (SP), em seis de abril de 1964, meu nome é Jefferson da Silveira Pereira, ou Jefferson Silveira, como sou conhecido no meio jornalístico. Sou neto de portugueses por parte de meu pai, Horácio. Minha avó paterna, Maria do Carmo, era natural da Ilha de São Miguel, no Arquipélago dos Açores, e meu avô, Joaquim, era do continente, da Pera do Moço, na Guarda.
Eles se conheceram no Brasil, na virada da década de 1930, e se casaram alguns anos depois. Por parte de minha mãe, Célia, a descendência portuguesa é mais antiga, pois meu avô, Waldemar, era mineiro e, “diz a lenda”,a origem familiar remonta à união de portugueses e índios nas Minas Gerais. Já a minha avó materna, Palmira, era filha de italianos. É como Santo Antônio, que é de Lisboa e de Pádua.

Apaixonado por Portugal, sempre torcedor da Associação Portuguesa de Desportos, participo intensamente da comunidade luso-brasileira, colaborando em festas e como voluntário na Barraca Portuguesa, na Feira das Nações de meu bairro, a Freguesia do Ó, Zona Norte de São Paulo, além de ser sócio da Portuguesa, clube no qual fui diretor no Departamento de Comércio em duas ocasiões, uma delas quando a Lusa foi Campeã Brasileira da Série B.

Jornalista há mais de 30 anos, tendo trabalhado em revistas como Veja São Paulo, Contigo e Boa Forma, a oportunidade de servir de forma mais efetiva a comunidade luso-brasileira na minha área de atuação profissional surgiu em abril de 2013, quando o diretor da Rádio 9 de Julho AM (1.600 kHz), Cônego José Renato Ferreira, me convidou para apresentar um programa na rádio, informando que o querido Martins Araújo, que há mais de uma década apresentava seu programa nas manhãs de domingo na 9 de Julho, não desejava permanecer na emissora.

O susto inicial deu lugar à euforia, afinal aquela seria a porta aberta por Deus para eu prestar o serviço que desejava à comunidade luso-brasileira e honrar a memória de meus avós e parentes, afinal um português nunca se esquece da terra onde nasceu!

Por isso pensei em um nome que representasse este amor à terra natal. Logo surgiu Cantares de Além-mar, pois a palavra “Cantares” refere-se mais do que a músicas, é também poesia, esportes, festividades, notícias, histórias... E “Além-mar” é o oceano que une Brasil, Arquipélago dos Açores, Ilha da Madeira, Portugal, e os brasileiros e portugueses pelo mundo, em uma mesma comunidade: luso-brasileira. O primeiro programa foi ao ar em uma data muito significativa para Brasil e Portugal: o feriado de 21 de abril e a véspera do Descobrimento.

Com o apoio de parentes e amigos consegui na rádio o espaço aos domingos das 8h às 9h, logo ampliado para até 9h30. A apresentação do programa é partilhada entre eu, minha esposa, Marta, e meus filhos, Marina Luiza e Giovanni, além da participação efetiva dos ouvintes e a preciosa colaboração do amigo, Padre Armênio Rodrigues Nogueira. É uma grande família, como toda família portuguesa, afinal minha esposa é filha de português, José, também da Pêra do Moço, na Guarda, sendo que ela e meus filhos têm nacionalidade portuguesa; assim como minha sogra, Natalina, que é descendente de italianos.

Não há lucro financeiro com o programa, por isso contamos com o apoio dos amigos e nosso sustento vem do trabalho em outra área – eu sou concursado da Secretaria de Estado da Educação e minha esposa da Rede Municipal de Ensino de São Paulo.

Para a realização deste sonho, que é o programa de rádio Cantares de Além-mar, tem sido fundamental o incentivo proporcionado e as notícias transmitidas pelo Consulado de Portugal em São Paulo, Casa de Portugal de São Paulo e do Grande ABC, associações, clubes, ranchos folclóricos e, especialmente, pelo Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo. O Conselho é um legítimo representante destas várias organizações e dos luso-brasileiros que vivem no Estado de São Paulo, local que possui a maior comunidade portuguesa fora da Europa.

O Conselho da Comunidade Luso-brasileira é o espaço em que as organizações interagem e é referência de unidade entre estes povos irmãos. Em um tempo no qual a divisão parece a tônica, e em que são erguidos muros entre pessoas e nações, Portugal e Brasil dão uma lição de que só é possível construir um mundo melhor por meio da união e do respeito às diferenças. Lembrando que as diferenças não podem ser compreendidas como algo negativo e sim como um espaço para o diálogo. E saber dialogar é uma grande virtude de portugueses e brasileiros, especialmente em torno de uma boa mesa e acompanhado de um saboroso vinho.

 
Jefferson da Silveira Pereira, Jornalista
 

 

 
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