Opinião  
 

“O brasileiro sempre afirma que é fruto da miscigenação. Mas este cenário não é um privilégio nacional, porque a mistura de raças já vem dos portugueses, pois na nossa Península sempre houve todo tipo de povo. E esta relação que une brasileiros e portugueses não é apenas emocional, tampouco religiosa, uma vez que a criatividade destacada entre os brasileiros já estava no português.

Temos uma identidade de alma. Todos nós herdamos esse lirismo do sangue lusitano. Depois, com os índios em solo nacional e com a vinda dos negros, todos assimilaram esta alma.

Com convicção podemos afirmar que somos brasileiros, porque antes de tudo somos portugueses. E, atualmente, com a crise econômica na Europa, em especial em Portugal e Espanha, houve uma redescoberta de um novo mundo e pelo tamanho da economia brasileira, tivemos um novo ingresso de patrícios por aqui.

Por via inversa, os empresários brasileiros precisam ter consciência que Portugal é um excelente caminho para atingir toda a Europa.

Além da parceria lusitana para selar importantes negócios, o Brasil pode sediar suas empresas em terras lusas para comercializar produtos e serviços para, além da Europa, Inglaterra e norte da África. O Brasil não tem esta visão, uma vez que só olha para a América do Sul, China e Índia. A posição geográfica de Portugal é privilegiada para se deslocar e para interagir com outros países. Essa identidade luso-brasileira precisa ser mais bem aproveitada.

Por sua vez, a existência do próprio Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo é de significativa importância, porque nossa história, usos e costumes têm de ser divulgados e a entidade cumpre este papel. A colônia é muito grande em São Paulo e, na realidade, nós nos sentimos em casa, e não apenas uma comunidade. Eu sou mais luso ou brasileiro? Eu sou tão português como sou brasileiro. Talvez por isso a necessidade de se buscar uma identidade é menor.

Nossas tradições aqui permanecem e temos ainda muito a mostrar, a começar pelo cinema, literatura, passando pela música e pela excelente gastronomia lusa. Sentar-se à mesa para fazer as refeições é cultural e importante para os portugueses e os brasileiros assimilaram isto, fato que grande parte dos norte-americanos não o fazem. Temos muita identidade!"

 
Pesquisador e professor, dr. Carlos Alberto Furtado de Melo
 
PERFIL
 

Graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1990), mestre em Ciências Sociais (Política) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1996) e doutor em Ciências Sociais (Política) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2003). Atualmente é pesquisador e professor tempo integral do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa; pesquisador do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política) da PUC-SP e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESPSP (Elites e desenvolvimento Paulista). Possui experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política e Cultura Política Brasileira, atuando nos seguintes temas: política e eleições nacionais e governos brasileiros.

“Sou filho de José Francisco de Melo e Tereza Medeiros Furtado, dois açorianos da Ilha de São Miguel, que migraram para o Brasil naquela situação típica de portugueses ilhéus: pobres e analfabetos; traziam ainda três filhos pequenos. Aportaram por aqui no mesmo ano em que Getúlio Vargas deu um tiro no peito. O Brasil e o mundo eram muito diferentes; “sem saber ler uma letra que fosse”, como dizia minha mãe, foram levando o barco e a vida. No ano em que o Brasil se sagrou campeão mundial de futebol pela primeira vez, 1958, nasceu mais um filho. E, em 1965, vim ao mundo eu; o quinto, caçula.

Como meus pais conseguiram, não sei. Sei que não foi fácil – vi de perto. Uma vida madrasta; barra foi pesada… Nem vale a pena contar. Mas, acredite. É a vida nas periferias do país; não conheci apenas de ler ou ouvir contar… Coisa para um romance ou analista. Como romance carece talento, acho que analista.

Enfim, nasci em 25 de junho, mais ou menos às 8 horas da noite, como suspeitava minha mãe. Ela me pariu em casa, que é como se paria antigamente – embora em 1965 já não fosse tão comum. Teve ajuda de parteira, chamada às pressas lá pelos arredores da Vila dos Remédios, bairro pobre da Zona Oeste de São Paulo, lugar onde cresci e joguei bola – melhor do que meus amigos admitem, mas aquém dos sonhos de ser um craque.

No parto, duvido que alguém tenha-se lembrado de conferir sua hora no relógio – devia haver por lá algum despertador de cordas, perdido pela penteadeira de poucos adornos. Por isso não tenho certeza do meu ascendente. Certa vez uma amiga que entende desse riscado disse-me que meu signo é Câncer, com ascendente em Aquário. Não sei bem o que isso significa, mas acho triste ser de Câncer e alegre ser de Aquário. Intimamente, sinto que sou mesmo os dois: “casa” e “liberdade”; e uma grande confusão entre os dois. Desconfio que menciono isso por puro charme. A verdade, é que não sei o que significa; apenas vivo minha confusão.

Aliás, um dia também me disseram que sou filho de Ogum com Oyá, entidades do Candomblé. Ogum, senhor dos metais, é guerreiro e impulsivo; incapaz de perdoar. Oyá (ou Iansã), audaciosa e autoritária. Não sei se sou assim. Não me sinto assim. De todo modo, admito que carrego certa impulsividade, junto com meus anéis de metal. Também tenho dificuldade em perdoar.

Fui para escola e lá me ensinaram a aprender. No trabalho, comecei naturalmente cedo. O último par de sapatos que lembro alguém ter-me dado, acho, foi aos 11 anos de idade. Carreguei areia para os vizinhos, sacola na feira; cortei vidro, fiz argamassa, vestibulinho e tarefas de office boy. Como meus pais, fui levando o barco. Peguei gosto e não parei de aprender: observo, reparo, sinto, intuo, concluo. Faço fé e restituo tudo isso como vejo. Assim, julgo que explico e contribuo. Não sei… Meus melhores amigos dizem que consigo traçar a big picture. Chique, não?
De todo modo, assombra-me a frase de Homero, na Ilíada — que li com meu filho: “os fatos só aos tolos ensinam”. Creio, então, que é preciso aprender antes dos fatos. A vivência e a desgraça alheias devem alertar e previnir. Mas, tolo, também aprendi com os fatos se os erros que carrego sem cultuar.

Virei doutor – é o que dizem — sem nunca acreditar que isso pudesse acontecer. Pelejei, mas não planejei. A vida conduz e, em cada esquina, por novas ruas entrei e fui dar nessas avenidas elegantes e brilhantes da academia, nas quais me sinto estranho. Caminhei esses caminhos e ainda, creio, não cheguei. E, penso, nunca chegarei porque, na verdade, não almejo parar. Vou andando; sou de onde vim e daqui; de onde estou para onde irei. Nesse mundo que não termina, a gente caminha; acorda, se alimenta e continua até que tudo se finde no esquecimento.
Mas, é verdade que ocupei espaços, me fiz conhecer, falei, escrevi, sou ouvido… Isso me comove (e me move). Sou ouvido – e lido. Certeza não carrego, mas desconfio que tenho algo a dizer. É o que me parece pela cara de espanto de algumas pessoas que ocupam seu tempo comigo. A natureza mesmo tem seus caprichos! Besouros voam, filhos de analfabetos vivem de escrever. Estatisticamente, isso é desprezível, basta consultar os dados.

Mas, o melhor mesmo seria que não houvesse doutores filhos de analfabetos. O analfabetismo é uma tristeza muito grande; precisa ser erradicado.

Nada disto, evidentemente, é importante. Só escrevo por que são detalhes gostosos de escrever: fluxo de palavras que transbordam; reminiscências acalmam; a melancolia abraça e traz à memória a imagem dos pais e do irmão mais velho, que se foram. Melancolia, Melo está no nosso nome! O fato é que, nesse relaxamento, sinto-me humano. É isto: acima de tudo, o gosto de escrever porque me traz a humanidade que o cotidiano facilmente nos rouba. Uma droga que escorre pelas veias e dilata as pupilas deixando estes dedos assim frenéticos, como agora. Por isso este Blog.

Da política, retiro apenas meu tema – poderia ser qualquer outra coisa nobre ou sórdida. Mas, a política tem os dois (a nobreza e a sordidez) e impõe o desafio de balancear sua miséria com sua majestade. Os grandes homens, os péssimos exemplos; as estórias. A História. Glória e decadência! O contrário também.

Partidariamente, não se iluda comigo: já fui crente, hoje sou açougueiro que enjoou de carne. Processo, não consumo. Adquiri paladar mais delicado, deixei de ter estômago para esse cardápio. Não indico, apenas avalio.
Na PUC-SP, me formei sociólogo, mestre e doutor. Cuidei para não me deformar. Ficaram no coração o casal Vera e Miguel Chaia. A Miguel, devo quase tudo. Principalmente, a ousadia de acreditar que seria possível. Devo também à minha mulher: sua paciência, seu perdão, seu humor dia após dia. Nosso filho!

Professor do Insper, desde agosto de 1999; analista político, consultor. Figura constante em vários veículos de comunicação; colaborador do Estadão, Editoria de Política e Caderno “Aliás,” . Pesquisador Associado ao NUPPs (Núcleo de Estudos em Políticas Públicas, da USP) e do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados). Acho que cheguei além do que poderia, inicialmente, ter imaginado. Não deixa de ser um orgulho. Mas, vaidade e obsessão só mesmo com meu texto – e meu time, o Corinthians!

Enfim, como meus pais, vou levando o barco — de um modo mais confortável, mais tranquilo, incomparavelmente mais fácil que a dureza daqueles tempos. Crio meu filho, Francisco – alegria da minha vida — na esperança de que ele aprenda e muito mais do que eu. E tome gosto por isso e faça de si melhor do que poderia ser. É assim. Como meus pais, sigo em frente. Ele seguirá em frente”.

 
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