
Enófila por paixão, Karene Vilela (@kvilela) é publicitária formada pela ESPM e possui mais de 15 anos de experiência na importação e distribuição de vinhos. Atualmente, é Head de Relações Institucionais do Grupo Bacalhôa, sendo responsável pelo fortalecimento da marca no Brasil, Portugal e Reino Unido.
Primeira mulher a presidir a Câmara Portuguesa de Comércio de São Paulo, trabalha para estreitar as relações bilaterais entre os dois países. É graduada pelo prestigiado programa Diploma WSET de Londres (DipWSET), uma das formações mais concorridas do mundo do vinho e conquistada por poucos profissionais no Brasil. Também é certificada pela Wine Scholar Guild (FWS/IWS/SWS), sommelier pela Court of Master Sommeliers (@court_of_ms_europe), educadora da WSET na The Wine School Brasil (@thewineschoolbrasil) e sócia idealizadora do projeto Got Wine? (@gotwinesp).
Karene também ministra aulas na SB Somm sobre vinhos da África do Sul e na ABS Alagoas sobre vinhos portugueses e espanhóis. É, ainda, uma das poucas estudantes do Brasil no concorrido programa do título Master of Wine.
Falar sobre a importância das relações entre Brasil e Portugal é quase sempre cair numa hipérbole anunciada. Como presidente da Câmara Portuguesa de São Paulo, espera-se de mim exatamente isso: que eu reafirme, quase por reflexo, que somos países eternamente conectados, unidos por raízes culturais, pela língua e por uma vocação natural para os negócios. Mas, como pessoa de negócios, sinto que o óbvio precisa ser dito com clareza e maturidade. Hoje, o Brasil não é o principal mercado de Portugal, assim como Portugal não é o principal parceiro comercial do Brasil. A nossa relação afetiva ainda não se traduz em números na mesma proporção. No Brasil, a Ásia e os US seguem dominando o share of mind empresarial; em Portugal, a Espanha e os Estados Unidos continuam protagonistas. Depois de dois anos à frente da Câmara, eu poderia seguir repetindo os mesmos argumentos de sempre, língua comum, herança histórica, crescimento dos voos diretos, mas a verdade é que nunca estivemos num momento tão estratégico para falar, de forma concreta, sobre a importância dos nossos negócios.
O ano de 2025 deixou claro que o mundo entrou numa espécie de guerra fria tarifária, na qual a diversificação de mercados, de clientes e de rotas comerciais deixou de ser opção e passou a ser condição de sobrevivência. Somado a isso, o início de 2026 nos coloca diante de um cenário geopolítico singular, com a eminência de um acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, capaz de redesenhar fluxos de investimento e cadeias de valor. Nesse contexto, a relação entre Brasil e Portugal pode tornar-se decisiva para empresários brasileiros que enxergam a Europa como caminho natural de expansão e para empreendedores portugueses que, depois de décadas olhando quase exclusivamente para o mercado europeu, começam a perceber a América Latina como uma oportunidade real de crescimento. Será fácil atravessar os desafios? Não. Desde questões práticas, como filas de até dez horas no aeroporto de Lisboa, até entraves estruturais, como a urgente necessidade de simplificação e transparência do sistema tributário brasileiro, muito precisará ser feito. O mundo moderno exige que passemos a falar, de fato, a mesma língua. O português é um ponto de partida, mas está longe de ser suficiente. Espero ver, na próxima década, esse discurso finalmente refletido em números. E me sinto profundamente honrada por poder ajudar a escrever essa história ao lado de tantos luso-descendentes e de todos aqueles que acreditam que a relação luso-brasileira não é apenas herança do passado, mas também uma das maiores oportunidades estratégicas do nosso futuro. Convido todos vocês a começarem 2026 escrevendo essa história e criando hipérboles reais nas relações entre Brasil e Portugal.